miercuri, 18 iunie 2008

Descomplicando (ou complicando mais?)

Vou tentar explicar melhor, não é fácil. Comigo também é assim: às vezes eu entendo, às vezes desentendo. Mas vamos lá. Para compreender a relação entre o banido e a ontologia aristotélica precisamos compreender dois pontos: o paradigma político ocidental segundo Agamben e a relação entre ato e potência em Aristóteles. Comecemos pelo paradigma político. O que Agamben sustenta em “Homo Sacer” é que esse paradigma é o da inclusão pela exclusão. Ou seja, para que a política se institua, ela precisa do excluído ao qual tentará incluir (seja como for, também com a sua eliminação), o que autoriza o estado de exceção. Eu entendi melhor essa relação exclusão-inclusão lendo “a linguagem e a morte”. Neste livro, Agamben não fala de política, mas de metafísica e trabalha com Hegel e Heidegger. Em algumas passagens mostra como a negatividade, entendida no sentido daquilo que escapa ao fato positivo, é o fundamento da metafísica desde Platão e passando inclusive por Heidegger. Em Platão, temos a idéia de bem que é um “além do ser”. Em Heidegger temos o ser que não é o ente e é indizível e inapreensível. O problema é que é justamente essa dimensão do negativo que gera a necessidade da metafísica, ou seja, a necessidade de apreensão de algo que nos escapa. Porque me escapa, porque está excluído, busco incessantemente apreender, preciso incluir. Daí a tentativa de Agamben, em “La communità che viene” de resolver o problema com o “ser qualquer”, o “singular qualquer”, que, embora não seja uma identidade fixa, pode ser “dito” (não há nada para nos escapar).
Bom, essa relação entre exclusão e inclusão será transferida para o paradigma político em “Homo Sacer”. O poder soberano é aquele que institui o estado de exceção, justamente para aplicar a norma àquele que escapa da norma: o banido ou o excluído. Assim, a lei se desaplica (é mudada, transformada, legalmente burlada) para ser aplicada (em uma nova ordem excepcional), por causa de uma exceção que não se enquadra na norma, mas que precisa ser enquadrada de algum modo. Esse é o nosso paradigma político ocidental: a inclusão pela exclusão (ou, se quiser, o excluir para incluir). Esse é o terrível caso de Auchwitz.
E o que isso tem a ver com a ontologia aristotélica? Segundo Agamben, esse paradigma político nasceu justamente dessa ontologia. A questão é a relação entre ato (enérgeia) e potência (dýnamis). Em Aristóteles, a potência não é só potência de ser ou fazer, mas também de não ser ou não fazer. A potência pode não ser (adynamía). Citando Aristóteles, Agamben diz que “o que é potente pode tanto ser como não ser”. A potência pode não passar ao ato, então, “pode o ato podendo não realizá-lo”. Mas como a potência passa ao ato? A potência passa ao ato somente quando “depõe” a potência de não ser. Isso não é destruição ou abolição da potência, mas a sua realização, pois, nas palavras de Agamben, a potência doa de si mesma enquanto se conserva. Para Agamben ,aí está o paradigma da soberania, pois, “dado que, à estrutura da potência, que se mantém em relação com o ato precisamente através do seu poder não ser, corresponde aquela do ‘bando’soberano, que aplica-se à exceção desaplicando-se.” Na relação entre ato e potência temos a autofundação soberana do ser, em que não há nenhuma outra ordem senão ele mesmo. Assim como a norma se desaplica para aplicar-se à exceção, assim acontece com a potência que se aplica ao ato desaplicando-se. Temos aí as raízes do nosso paradigma político.
O que me parece fundamental notar é essa relação entre duas instâncias em um processo de exclusão-inclusão. Mas o foco não está nas duas instâncias, senão na relação entre elas que é a manobra política de incluir pela exclusão – o estado de exceção em que se desaplica a norma para aplicá-la, assim como a potência se desaplica para aplicar-se ao ato (antes eu havia visto outro ponto que parece não ser bem o que Agamben defende: o potência como essa dimensão de negatividade que precisa ser transformada em ato, ou seja, a própria potência como o banido que precisar ser incluído. Mas vamos esquecer isto para não aumentar a confusão).
Então, Agamben vai expor autores que já perceberam um princípio de potência na definição da soberania enquanto defende a necessidade de se pensar uma ontologia da potência que escape ou fique fora da relação com o ato (tudo isso para sair do paradigma do poder soberano). Nesse contexto, Bartleby é uma figura de resistência à medida que “prefere não” escrever e não obstante escreve, e assim se exime de decidir entre o ato e a potência. Porém, segundo Agamben, apesar de levar ao limite a aporia da soberania, não consegue se libertar totalmente.
No meu entendimento, é mais ou menos assim. Mas não tenho muita certeza... Você entendeu alguma coisa diferente de como eu entendi? Também preciso da sua ajuda para esclarecer isso tudo... (E depois, precisamos pensar o que achamos disso. Às vezes Agamben não me convence...)

2 comentarii:

Hilan spunea...

ah, comeco a entender.
vou tentar escrever para o agamben para pedir mais detalhes.
para benjamim, o direito e para ser lido, e nao para ser aplicado.
pura potencia?

differance spunea...

Pois é: potência pura?
A meu ver, se há um problema político na relação entre ato e potência, a saída talvez não seja o deslocamento para um dos termos, ou seja, afirmar uma "potência pura" que não passe ao ato (que nem mesmo sei como pode ser sustentada), mas, talvez, abir mão de ato e de potência e fazer ontologia a partir de outras possibilidades. Mas é isso o que queremos? E depois, ainda temos que ver se essa relação entre potência e política, nos termos em que Agamben a coloca, é mesmo o caso...