duminică, 21 decembrie 2008
Fragmentos impávidos II
128. Em verdade, não deixamos de entrar duas vezes no mesmo rio como anteriormente afirmei (frg.91), mas não entramos sequer uma única vez. As águas nunca são as mesmas.
129. Tudo depende de como compreendemos o “mesmo”. O mesmo não é a identidade do idêntico, mas o acontecimento da diferença, assim como bem entendeu Deleuze (Diferença e Repetição, p.92) ou como eu mesmo outrora, de certa forma, sustentei (frgs. 8 e 10).
130. A tradução brasileira da interpretação de Heidegger do meu fragmento 53 (Introdução à Metafísica, p.89) possibilita uma intuição fecunda acerca do polemos. Parece-me um dos raros casos em que a tradução supera o autor. Para esta tradução brasileira, a palavra alemã Auseinandersetzung, usada por Heidegger para traduzir polemos para a língua alemã, é lida, no contexto da reflexão heideggeriana, como “dis-posição”. Atenção a esta palavrinha aparentemente inocente. A partir dela, o polemos deixa de representar o conflito binário entre opostos e começa a dizer-se como algo que desfaz uma posição, que des-loca. O polemos, assim, pode assumir múltiplas possibilidades antes impensadas, como uma rede de possibilia emaranhadas e distintas que se esbarram e se abandonam freneticamente. O polemos, assim compreendido, não exige mais inimigos, mas apenas e tão somente anuncia contínuos des-locamentos.
131. Os “pequenos deslocamentos” chegaram até mim por meio de Agamben (La communitá che viene, pp.45-47). O filósofo cita Bloch: "Tutto sarà com'é ora, solo un po' diverso." Para que venha o Novo Reino, defende o filósofo italiano, basta que ocorram pequenos deslocamentos. Ora, mas o que são estes pequenos des-locamentos senão dis-posições polêmicas?
132. Apesar da tradução brasileira de Auseinandersetzung (polemos) como dis-posição, verdade seja dita: Heidegger terminou por submeter esta dis-posição à relação ente-ser e, assim, sua fecunda intuição (ou intuição da tradução brasileira?) sucumbiu ao binarismo. Vemos, então, o embate violento entre ente e ser em Introdução à metafísica, que se transforma, na Origem da Obra de Arte, no embate terra-mundo. Mas o polemos é outra coisa. Como afirmou certa feita Deleuze (sem, propriamente, referir-se ao polemos), “não se trata de resolver tensões no idêntico, mas de distribuir disparates numa multiplicidade” (Diferença e Repetição, p. 86). O mesmo digo eu do polemos.
133. O polemos, a partir da sua original leitura como dis-posição, define uma micropolítica dos des-locamentos. O modo de ser das coisas não é algo dado, uma substância, um ser, mas dis-posições polêmicas que, em seus pequenos e constantes des-locamentos, tecem a sua micropolítica. Wesendammerung?
134. Então, pergunto a Deleuze: como pensar a política antes da ontologia?
135. As Políticas (ou macropolíticas) nascem das referências que inventamos. Porém, a Política, enquanto se afirma referência, precisa se opor ao modo de ser polêmico das coisas. A Política nada mais é do que o esquecimento do polemos. Que as Políticas sejam superadas pelos pequenos des-locamentos, essa é a nossa micropolítica. Uma política minimalista do trânsito das ontologias. Uma micropolítica do polemos.
136. Recordando o que dizia, “eu me procurei a mim próprio” (frg.101). Porém, depois descobri, não sem surpresa, que eu era sempre outro de mim e que o “próprio” não passava de uma dança de devires. Demorei a entender porque ainda não havia encontrado Deleuze naquela bela tarde entre amigos.
137. Os pequenos des-locamentos não são antíteses de teses. Não submetemos o polemos à identidade.
138. A rarefação enfraquece a referência.
139. Polemos, e não philia. Este é o acontecimento das coisas.
vineri, 19 decembrie 2008
Heraklit sagt (Frgm. 53): polemos panton men pater esti, panton de basileus, kai tous men theous edeixe tous de anthropous, tous men doulous epoiese tous de eleutherous.
Auseinandersetzung ist allem (Anwesenden) zwar Erzeuger (der aufgehen laBt), allem aber (auch) waltender Bewahrer. Sie laBt namlich die einen als Gotter erscheinen, die anderen als Menschen, die einen stellt sie her(aus) als Knechte, die anderen aber als Freie.
Der hier genannte polemos ist ein vor allem Gottlichen und Menschlichen waltender Streit, kein Krieg nach menschlicher Weise. Der von Heraklit gedachte Kampf laBt im Gegeneinander das Wesende allererst auseinandertreten, laBt Stellung und Stand und Rang im Anwesen erst beziehen. In solchem Auseinandertreten eroffnen sich Klufte, Abstande, Weiten und Fugen. In der Aus-einandersetzung wird Welt. [Die Auseinandersetzung trennt weder, noch zerstort sie gar die Einheit. Sie bildet diese, ist Sammlung (Logos). Polemos und logos sind dasselbe.]
Der hier gemeinte Kampf ist ursprunglicher Kampf; denn er laBt die Kampfenden allererst als solche entspringen; er ist nicht ein bloBes Berennen von Vorhandenem. Der Kampf entwirft und entwickelt erst das Un-erhorte, bislang Un-gesagte und Un-gedachte. Dieser Kampf wird dann von den Schaffenden, den Dichtern, Denkem, Staatsmannem getragen. Sie werfen dem uberwaltigenden Walten den Block des Werkes entgegen und bannen in dieses die damit eroffnete Welt. Mit diesen Werken kommt erst das Walten, die phisis, im Anwesenden
zum Stand. Das Seiende wird jetzt erst als solches seiend. Dieses Weltwerden ist die eigentliche Geschichte. Kampf laBt nicht als solcher nur ent-stehen, sondern er allein bewahrt auch das Seiende in seiner Standigkeit. Wo der Kampf aussetzt, verschwindet zwar das Seiende nicht, aber Welt wendet sich weg. Das Seiende wird nicht mehr behauptet [d. h. als solches gewahrt]. Es wird jetzt nur vor-gefunden, ist Befund. Das Vollendete ist nicht mehr das in Grenzen Geschlagene [d. h. in seine Gestalt Gestellte], sondem nur noch das Fertige, als solches fUr jedermann Verfugbare, das Vorhandene, darin keine Welt mehr weltet -vielmehr schaltet und waltet jetzt der Mensch mit dem Verfugbaren. Das Seiende wird Gegenstand, sei es fur das Betrachten (Anblick, Bild), sei es fur das Machen, als Gemachte und Berechnung. Das ursprunglich Waltende, die phisis, fallt jetzt herab zum Vorbild fUr das Abbilden und Nachrnachen. Natur wird jetzt ein besonderer Bereich im Unterschied zur Kunst und zu allem Herstellbaren und PlanrnaBigen. Das ursprunglich aufgehende Sichaufrichten der Gewalten des Waltenden, das phainesthai als Erscheinen im groBen Sinne der Epiphanie einer Welt, wird jetzt zur herzeigbaren Sichtbarkeit vorhandener Dinge. Das Auge, das Sehen, das ursprunglich schauend einstmals in das Walten erst den Entwurf hineinschaute, hineinsehend das Werk her-stellte, wird jetzt zurn bloBen Ansehen und Besehen und Begaffen. Der Anblick ist nur noch das Optische. (Schopenhauers» Weltauge« -das reine Erkennen ...)
marți, 16 decembrie 2008
Os fragmentos impávidos de Heráclito I
Heráclito não quis mais saber de Efesos depois que a cidade expulsou Hermodoro. Aproveitou e seguiu o melhor homem - que nunca havia entrado no mesmo mar duas vezes - para o norte e chegaram a Assos de onde contemplavam Lesbos, a ilha de Sapho trêmula onde deitaram em umas ondas ofegantes. Ali, naquela praia cheia de turcos e espreguiçadeiras e onde começaram a esfregar physis e nous, Heráclito largou mais fragmentos, muitos mais, 126 mais.
Ele os enviou por uma turista para um lugar longe da água. Ela lhe sussurrou que iria para o cerrado ao redor de Brasília e iria guardá-lo em uma casa em cima de uma árvore. Com as escavações arqueológicas promovidas pela tentativa de construir o setor noroeste da cidade, os tais fragmentos foram encontrados. O Instituto de Patrimônio Heraclítico assegurou que o texto é completamente espúrio, que não tem valor arqueológico algum - seria uma mera invenção de uns poucos intérpretes de Heráclito que nem sequer formam uma tribo. Vejam vocês:
127. Nem só de esconder-se brinca a natureza. Também sopra balões, reune-se em rodinhas de briga de galo, come chocolates e procura recantos secretos para deitar-se com o logos. Diz-me muito mal das tais leis que ultimamente todos lhe atribuem: diz que elas estão cheias de casuísmos e foram outorgadas por alguém que nunca sentiu o ar aquecido pelas patas das joaninhas que andarilham nos fins de primavera. São leis que ninguém consegue cumprir. Lei, como eu disse no já meu fragmento 33 de saudosa memória, é persuadir-se a vontade de um só. A natureza gosta de espalhar as vontades, de contrapor as forças, de ver o que acontece à ordem quando ela é posta em uma campo de refugiados. Li um fragmento contemporâneo que diz que a natureza gosta de reembaralhar as perguntas, para que ninguém lhe responda de uma vez por todas. Ela não faz nada de uma vez por todas - gosta de refazer, e de burilar, de retocar e de por tudo a perder refazendo todos os entes com areia molhada e os dispondo na beira do mar.
Disposições, conflito, deposições, logos
O mais forte, eu gostava de dizer, ganha não pela lei do mais forte, mas porque é o mais forte - e se pendurar nos valores estabelecidos (ao invés de depô-los, de dispô-los e de tratá-los como um déspota trataria) como fazem os poderosos da vez, enfraquece, pára o pólemos; conta que vai ficar posto o que alguém já pôs (Ständigkeit). As forças estão no polemos - a fraqueza na nossa separação dele.
Logocentrismo vs polemocentrismo: o polemos não tem centro - talvez o logos de Heidegger também não tenha. Mas há um tema de pós-humanismo aqui: no começo era o polemos não é no começo era o logos a não ser que o logos esteja por toda parte. Confinar a política aos domínios onde a natureza se cala - e pensar com a fronteira entre o que é natural e o que não é (ou o que já não é) - é separar a physis do logos, e a physis do polemos. Talvez tenha melhor resultado a seguinte performance: declaro que o polemos é logos e que é physis. E calar quanto a transitividade.
O déspota não é um sujeito - o polemos é o escombro do Gott ist Töt; o polemos é o Gottdammerung. No polemos não há o próprio, o próprio é o que está livre do assalto do mundo, o que está escondido na caverninha íntima das coisas e o polemos é Wesendammerung. Assim as disposições - as disposições são a marca do impróprio em nós. O polemos é déspota que sempre des-põe, que nunca se transforma de forte em poderoso. O polemos é o impacto das possibilia sobre nós: nós pomos (identificamos, individuamos, especificamos, tipificamos) e o polemos dispõe.
A substituição da physis que é polemos por um domínio de leis (a natureza que deixou de ser forte para ser poderosa, para ser guardiã das necessidades caprichosas que são as leis da natureza - que passou a ser governante e não mais déspota) empurrou para longe as disposições soltas, a physis foi colonizada de ordem e progresso - o polemos foi empurrado na vala comum do acaso.
marți, 14 octombrie 2008
Potências e necessidades
marți, 30 septembrie 2008
Ontologia das potências
Cada modo de ser que atualmente persevera na existência é constituído por componentes díspares em conflito. Mas o problema é ainda anterior, pois o próprio plano do qual eles se dizem está implicado no retorno seletivo da diferença, ora esse retorno se dá na seleção de forças de naturezas distintas e irredutíveis, na política de um embate mais originário que é da onde pode surgir alguma concepção do ser. Por isso a política vem antes do ser, o que acarreta certamente em uma outra relação prática com o pensamento e com o mundo.
O pólemos é o único princípio de uma filosofia crítica.
A cada vez que se instaura um princípio em filosofia que não seja o problemático, a própria problematização, trai-se o ato do pensamento submetendo-o a coordenadas transcendentais que o estabiliza em dogmas. O pensamento é de direito a arma que envolve os dogmas e as reatividades no embate originário e seletivo do retorno, ainda que ele não o seja muitas vezes de fato. Com isso se recaracteriza a tradição como uma imagem dogmática do pensamento (nous) em seu projeto de dominação e controle da natureza (physis). A tradição que todo ao longo de sua história poupou e compactuou com autoridades arbitrárias, traindo o pensamento em sua maior potência do envolver-se no problemático.
O plano de imanência é o plano crítico envolvido no pólemos.
A partir de um tal princípio (o problemático) pode-se construir uma nova imagem do pensamento (nous) e uma outra relação com a natureza (physis). Dessa opção política pelo questionamento decorre uma ontologia que aqui chamamos de ontologia das potências. Tal ontologia compreende o ser de forma unívoca o que poderia levar a uma contradição, acontece que o ser só se diz univocamente da diferença, instaurando um plano pré-filosófico. É nesse plano que se desenrola o embate, a política e o problemático, esse plano é o plano de imanência expurgado de qualquer transcendental, plano da univocidade do ser e do retorno seletivo da diferença (intensidades).
As potências povoam o plano de imanência.
Todo modo de ser no plano unívoco de imanência corresponde a um grau relativo de potência e de velocidades e lentidões que estão para o grau absoluto de potência do plano e suas velocidades infinitas. Os modos de ser ou modos individuados povoam o plano implicados nele, no entanto, ao plano de imanência se superpõe o plano transcendente que implica a imagem dogmática do pensamento e a organização sistemática do mundo. Alucinações emanam do plano e joga o pensamento em coordenadas que o ultrapassa. Os modos então flutuam esquizofrenicamente no embate seletivo do retorno, na querela infinda das superposições dos planos.
marți, 16 septembrie 2008
Excessos e Exceções - o clip
Agora pergunto ao público em geral qual é a melhor versão, A ou B? Vou escolher entre as duas em duas semanas de acordo com a votação nos blogs - como votas?
(A) http://br.youtube.com/watch?v=aO00hFuIkpc
(B) http://br.youtube.com/watch?v=LFTGObvkxjI
hehehe
duminică, 14 septembrie 2008
Programa
Questões metafísicas do conhecimento
Ontologia das Potências
Hilan Bensusan
Programa
1. O problema com as potências. O papel das possibilia no mundo. Imanência, capacidades, faculdades e pensamento. O desafio humeano. Atualismo e ontologia das potências – alternativas.
2. Estratégias atualistas. Epistemologia e ontologia humeana. A natureza da independência entre potências e manifestações: a análise condicional das disposições, potências de não, faculdades e capacidades, ato e potência.
3. Algumas marcas do disposicional: a imanência, a intencionalidade física. A imanência absoluta e a concepção das potências como sem transcendência. O lócus das potências. Propriedades e categorias: dificuldades. .
4. Estratégias contra a dependência entre potências e suas manifestações. A análise condicional e as disposições irrelevantes e paralelas. As disposições finkish. Ontologia das potências independentes.
5. O lugar do atual em uma ontologia das potências. Imanência e intrinsicalidade. Categorização. Propriedades categóricas, manifestas, qualitativas. Espaço e tempo como potências: objetos abstratos.
6. Potências e necessidade. As variedades da necessidade – conexões necessárias e disposições. Analiticidade revisitada. Conexões semânticas e ontologia. Poderes e impossibilidade. Modalidades e potências. A imanência da impossibilidade.
7. Mundos possíveis e atualismo. Uma extensão de Hume? Variedades de realismo modal. Vantagens do concretismo. A extensionalidade dos mundos possíveis, sua realidade. Potências externas ao mundo atual.
8. Poderes e forças. A atividade das potências e sua interação com forças. Propriedades versus forças dispersas: a natureza da identidade em uma ontologia de potências. Reatividade.
9. Potências e leis. Leis da natureza. As leis categoriais: cláusulas ceteris paribus. Categorização e extrinsicalidade da necessidade. Quidditismo. A rejeição da transcendência das potências e a univocidade do ser.
10. Potentia e potestas. Os poderes e o poder. Propriedades? O polemos revisitado. As atribuições de poder, as forças e as identidades.
Gilbert Ryle, The Concept of Mind
David Lewis, On the Plurality of Worlds, “Finkish dispositions”
Giorgio Agamben, “Imanência absoluta”, “A potência do pensamento”
Alexander Bird, “Potency and modality”
Giles Deleuze, Nietzsche e a filosofia, “Bartleby ou a fórmula”
Tim Williamson, “Knowledge of metaphysical modality” in: The Philosophy of Philosophy
Antonio Negri, A Anomalia Selvagem
Stephen Mumford, Laws in Nature
Kit Fine, “The problem of possibilia”, “Varieties of necessity”
Um escrito orgânico que será apresentado duas vezes, uma vez ainda inconcluso e em sua versão final.